VERMELHO-SANGUE


Vermelho-sangue é uma fotografia em que retrato os meus pais com rosto, cabelos e pescoço pintados de vermelho. Ela/e estão vestides com roupas ocidentais urbanas, também em tons vermelhos.

A minha mãe é uma mulher nascida e criada no sertão do RN que migrou para São Paulo, onde conheceu o meu pai, um roceiro do interior. Casaram-se, se filiaram a uma igreja evangélica radical, tiveram quatro filhas e uma vida com muitos conflitos. 

Quando os fotografei, havia já quatro anos que o meu pai tinha sofrido um AVC e dependia inteiramente de minha mãe. Neste período, por conta da doença, ele tinha desenvolvido uma doçura.

Esta imagem representa uma vida, um encontro. Porque, para além da violência e do conflito, também é possível reparar no encontro da pele deles nos braços dados, nas mãos entrelaçadas. Há algo nela que abre perguntas. Poder-se-ia dizer que um processo de cura, a cura como algo molecular, sutil – um espaço interseccional e micropoliticamente produtivo –, um tipo de ensinamento que se instaura e reorganiza aquilo que estava doente, a anomalia. 

Carrega uma certa insistência no tempo, entre permanência e mudança, e instaura um ritual de auto reconhecimento em que para se afirmar o mesmo é preciso ser sempre outro, mesmo que para isso seja necessário visitar lugares comuns como herança biológica, ancestral e o estranho-familiar que nos constitui.



2015
giclee print
60 x 60 cm