FALA!



Fala
fala como a noite fala
fala como a montanha fala
como elas falam e a gente toda entendendo
Cio da terra
Cicio da terra
e as gentes todas entendendo
falar como um maxilar mastiga
fala como a noite, fala!
falar como um osso estrutura
fala como a montanha, fala!
falar como a fruta amadurece
e depois esquece.
Fingir os cachorros que fingem que dormem, no fundo a orelha em prontidão, daí o tom
escurecer como a noite que acende estrelas. Falar como as montanhas, silêncio. Falar como o mar fala
Solfejar como um quadril chacoalha, fala!
Fala como elas dançam:
a montanha, a noite, a terra, o mar, o maxilar, o osso, os cachorros, as pedras.
desassujeitando.
Calar e falar como calam e falam as pedras
Vou te devorar!
No presente, contra o presente e em favor do tempo que virá, que é também presente e passado - uma promessa que não precisa acontecer.
Mover como movem ciclones e constelações
2021
instalação site-specific 300 × 180 × 120 cm
antiga trilha do garimpo, Igatu/Bahia















Fala! foi realizado na residência artística Mirante Xique-Xique, em Igatu/ Chapada Diamantina, vila que se tornou conhecida por ser rota de garimpo até 1940.

O processo de garimpar consiste em quebrar as rochas em pedras menores verificando se há diamante em seus cascalhos. As pedras quebradas foram deixadas ao léu pelos antigos garimpeiros por toda a região de Igatu e assim permaneceram desde o fim do garimpo.

Em uma dessas trilhas, proponho uma instalação feita com estas pedras. Cada pedra foi pintada com uma palavra dentre 180 que compõe o poema Fala! A pintura foi feita com pigmento natural à base de argila, encontrado dentro de uma caverna pelo mestre Chiquinho de Igatu.

É uma instalação a céu aberto que se modifica com o tempo; pessoas levam algumas pedras, rearranjam outras.